Todo mundo virou crítico gastronômico?
- Lulu Peters

- há 2 dias
- 2 min de leitura

Great, now everybody is a food critic.
WHAT THE FUCK IS GOING ON?
Gente, quando eu saía para comer eu ia pelo prazer de não ter que cozinhar, pelo prazer de não ter que lavar louça, pelo prazer de comer um tempero que não fosse meu e, principalmente, pela companhia. Restaurant Week era apenas uma desculpa para toda a mulherada, que já estava se espalhando em novas jornadas e empregos, se reunir, comer e fofocar.
Avaliar a comida, reclamar da comida, era só nos casos muito extremos. Era quando a comida de uma não chegava, quando alguém errava muito feio na execução e, mesmo assim, porque estávamos todas lá, felizes, a gente acaba rindo do que saía errado.
Ninguém podia tirar foto pelo celular e não fazia muito sentido levar uma máquina fotográfica - mesmo as digitais - para ficar fazendo foto enquanto a comida esfriava.
Comer em restaurante com o intuito único de avaliar e criticar tecnicamente era coisa de crítico gastronômico: alguém com formação específica, mas, em muitos casos, jornalistas ou escritores de veículos, com experiência, muitas vezes adquirida com a prática, tipo, o editor mandou tantas vezes cobrir pauta de gastronomia que a pessoa se especializou.
Quando eu comecei o MPBSB, eu ia com meu companheiro que estava começando uma carreira que ele nem tinha certeza se queria, e a gente comia juntos, reparando, eu no serviço, e ele na execução. E mesmo assim, vários textos de crítica foram cômicos, porque a gente só ria e dizia que não ia dar para voltar mais naquele lugar.
Mas eu acho muito triste que as mídias sociais - e, sim, em particular o Instagram - atribuíram um “quê” de autoridade a toda e qualquer afirmação que circule por lá com uma “carinha que o algoritmo gosta” como verdade fática, como estudo, como dado científico.
E vamos combinar, uma avaliação gastronômica jamais será tão imparcial, técnica e objetiva como, por exemplo, a avaliação de uma construção, de um carro, de qualquer coisa que dependa exclusivamente de um cálculo para dar certo. Sim, porque mesmo também contando com medidas, temperaturas e quantidades, ingredientes e humanos ainda são uma mistura com um mínimo de incerteza e, em cima disso, gosto pessoal. Bacon crocante ou bacon molenga? Gema dura ou mole? Tem comida que deu errado e fez a pessoa gostar mais do que a receita certa. E aí? Quantos juízes teremos agora em cada esquina, aguardando para emitir sentença sobre os restaurantes?
E que saco todo mundo agora sair pra comer pensando no que vai escrever depois no instagram ou no google!! Eu até fico me perguntando como a pessoa sabe o que ela comeu, porque ficou no celular ou porque já chegou querendo reclamar. E o pior: quanto mais sangue se tira, melhor o alcance, porque se tem uma coisa que brasileiro sabe e gosta de fazer é RECLAMAR.
O irônico é que se você pensar na melhor refeição que você já fez e te oferecerem comer ela novamente, mas acompanhado do pior chefe que você já teve, será que você vai gostar de novo?
A experiência gastronômica é íntima, gente, imprevisível. Cuidado para não atribuir à comida um amargor que, no fim das contas, pode estar vindo da sua companhia ou da sua persona turrona de crítico gastronômico.





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